Parceria direta entre consumidores e agricultores gera alimentação mais saudável e desenvolvimento rural em São Paulo

Projeto da Prefeitura estimula modelo em que o consumidor se torna coagricultor e fortalece transição de produtores para agricultura agroecológica e orgânica

Sítio Yoneyama | Foto: Thiago Benedetti

Apesar de a pandemia do Covid-19 ter trazido de volta ao Brasil o fantasma da insegurança alimentar, o período também revela uma maior procura por alimentação saudável no país. O estudoNutriNet Brasil, iniciativa do Nupens/USP (Núcleo de Pesquisas Epidemiológicas em Nutrição e Saúde da Universidade de São Paulo), realizado com mais de dez mil pessoas, mostrou que a frequência no consumo de alimentos saudáveis aumentou de 40,2% para 44,6% durante a pandemia.

A tendência favoreceu, especialmente, produtores agrícolas de alimentos orgânicos. Dados da Associação de Promoção dos Orgânicos (Organis) revelam que, em 2020,o setor fechou o ano com crescimento de 30%, movimentando cerca de R$ 5,8 bilhões.

Na zona sul da capital, o Projeto Ligue os Pontos, da Prefeitura de São Paulo, vem estimulando e oferecendo apoio técnico para a transição da produção agrícola convencional para agroecológica e orgânica. E uma das estratégias para viabilizar o processo é a Comunidade que Sustenta a Agricultura (CSA).

“O Projeto Ligue os Pontos não tem esse nome por acaso, ele engloba uma série de ações que conectam e mobilizam todos os elos dessa cadeia, do produtor ao consumidor final”, diz a secretária de Desenvolvimento Econômico, Trabalho e Turismo de São Paulo, Aline Cardoso. “A CSA é uma dessas ações que, por meio do apoio à produção rural, gera desenvolvimento social e econômico aliado à preservação ambiental”, explica.

Propriedade de Rogério dos Santos Oliveira está em transição agroecológica | Foto: Thiago Benedetti

A CSA consiste em um grupo de consumidores, chamados de coagricultores, em relação direta com uma família produtora rural. Pagando um valor fixo mensal, a comunidade cobre os custos da produção, transporte e assistência técnica, viabilizando a transição agroecológica da propriedade. Em troca, recebe semanalmente cestas de produtos frescos cultivados.

“O processo de transição é um momento de apreensão para os produtores, pois pode haver perdas produtivas até que eles adequem o manejo e passem a ter uma produção constante novamente”, explica Nicole Gobeth, gestora do Projeto Ligue os Pontos.“Nesse momento, é fundamental esse apoio do grupo, que irá assegurar a compra da produção, seja ela qual for, respeitando inclusive a sazonalidade dos produtos”, conclui.

“A comunidade compartilha escassez e abundância”, resume Janaína Belo, uma das gestoras da CSA Martinelli, formada por 45 coagricultores que trabalham no Edifício Martinelli, no centro de São Paulo. “Durante a fase de transição para a produção orgânica, às vezes a colheita não era suficiente, e nós fizemos uma parceria com a COOPERAPAS (Cooperativa Agroecológica dos Produtores Rurais e de Água Limpa da Região Sul de São Paulo) para completar a cesta. Hoje, nossas entregas já são totalmente providas pela família produtora”, conta.

A família produtora da CSA Martinelli, do sítio Yoneyama, realizou a transição agroecológica da propriedade toda, cerca de 15.000m2, com o apoio dos coagricultores e, no final de 2020, conseguiu a certificação orgânica pelo IBD – Instituto Biodinâmico e hoje entrega 100% dos produtos orgânicos certificados.

O produtor Rogério dos Santos Oliveira fornece alimentos para a CSA Popular, que engloba dois grupos na zona oeste da cidade, com cerca de 140 cestas entregues semanalmente. A propriedade dele está em transição agroecológica, sendo hoje uma parte ainda cultivada pelo método convencional e a outra já produzindo alimentos orgânicos. “Eu estou muito feliz por já estar usando algumas técnicas do orgânico também na parte do plantioconvencional”, ele comemora. “Fazer parte da CSA me dá a segurança que eu preciso para fazer a transição, junto com o apoio técnico dos agrônomos”, conta.

No Jardim Boa Vista, os alimentos produzidos por Rogério chegam ao Colégio Micael na sexta-feira, onde são montadas 71 cestas. “Saber que a gente está ajudando diretamente um produtor, que está na nossa cidade, é maravilhoso”, diz Clarissa Matoso, uma das coagricultoras do grupo.

Separação de itens para organização das cestas entregues por meio do CSA Popular | Foto: Thiago Benedetti

Além do fortalecimento do cultivo agroecológico nas zonas rurais da cidade, as CSAs também visam à educação alimentar pela inserção de produtos menos conhecidos pelos consumidores. É o caso de hortaliças sazonais, PANCs (plantas alimentícias não convencionais), ervas medicinais e temperos diversos. Jéssica Dias, coagricultora da CSA Popular, já sente esse efeito em sua alimentação. “A gente está se alimentando cada vez melhor dentro de casa, e tem oportunidade de conhecer produtos que não fazem parte da nossa rotina, aumentando a variedade por um preço acessível”, diz.

“A gente está sempre trocando receitas no grupo do CSA; é uma oportunidade de experimentar novos alimentos, sabendo que são produtos saudáveis e que estamos ajudando o produtor na outra ponta”, resume Juliana Tedesco. Ela é mãe de duas crianças, e destaca que fazer parte da CSA Popular une uma alimentação mais saudável para sua família com o estímulo a uma produção agrícola mais sustentável. “É maravilhoso estar nessa relação em que todo mundo ganha, desde a minha família até o planeta”, diz.

“Nesse circuito curto de comercialização, até a emissão de poluentes causada pelo transporte dos produtos é menor, pois o consumidor recebe diretamente das mãos do produtor”, destaca Nicole Gobeth.

Consumidores aprovam os CSAs | Foto: Thiago Benedetti

Esse sentimento de solidariedade, marca das CSAs, também se converte em ajuda para pessoas em vulnerabilidade social, especialmente durante o momento de pandemia. “Cada um contribui com um pouco a mais, conforme suas possibilidades, e nós revertemos isso em cestas que são doadas a famílias do entorno”, diz César Pergoraro, um dos gestores do CSA Popular. No centro de São Paulo, a CSA Martinelli também ajudou quem mais precisava, doando cestas para a Cozinha do Bixiga, que prepara marmitas distribuídas a pessoas em situação de rua pela tenda franciscana, no ano passado. “Em junho teremos uma reunião virtual do grupo em que vamos organizar a campanha de doação de 2021”, conta Janaína Belo.

O Projeto Ligue os Pontos está lançando um conjunto de cartilhas técnicas para que as ações e atividades implantadas possam ser replicadas. Uma das cartilhas é sobre as Comunidades que Sustentam a Agricultura, com informações sobre o passo a passo para a montagem de CSAs.

Projeto Ligue os Pontos

O Ligue os Pontos é uma iniciativa da Prefeitura de São Paulo para promover o desenvolvimento sustentável do território rural e aprimorar suas relações com o meio urbano a partir dos diversos pontos envolvidos na Cadeia da Agricultura e do Alimento.

Com essa proposta, a cidade de São Paulo foi vencedora do prêmio Mayors Challenge 2016, promovido pela Bloomberg Philanthropies. A organização premiou iniciativas inovadoras em políticas públicas nas cidades da América Latina e do Caribe. São Paulo recebeu o prêmio principal, com a premissa de que um dos grandes desafios a ser enfrentado pelas cidades latino-americanas é estabelecer uma relação sustentável entre as áreas urbana e rural.

2 comentários sobre “Parceria direta entre consumidores e agricultores gera alimentação mais saudável e desenvolvimento rural em São Paulo

  1. Boa tarde, como adquirir produtos orgânicos? Moro na região central de São Paulo, próximo a Av. Paulista.
    Qual o valor da contribuição mensal ?

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