Publicações revelam agricultura e flora em terra indígena na zona sul

Live de lançamento das publicações sobre a terra indígena Tenondé Porã

Livros sobre Terra Indígena Tenondé Porã, na região de Parelheiros, foram lançadas em live nas versões impressa e digital

Nesta quarta-feira (30/06), a Prefeitura de São Paulo lançou de forma on-line as publicações “Os agricultores guarani e a atual produção agrícola na terra indígena Tenondé-Porã Município de São Paulo” e “Flora Tenondé-Porã – Levantamento Florístico na Terra Indígena Tenondé Porã: resultados preliminares”. As obras foram realizadas por parceria entre as secretarias de Desenvolvimento Econômico, Trabalho e Turismo e do Verde e Meio Ambiente, com apoio do Projeto Ligue os Pontos, que busca o fortalecimento da agricultura e preservação ambiental na zona sul da cidade.

“Nós temos uma diversidade enorme na nossa cidade, e isso está sendo resgatado e valorizado por essa gestão, que é inovadora”, diz Aline Cardoso, secretária de Desenvolvimento Econômico, Trabalho e Turismo. “Com estes registros, a Prefeitura poderá elaborar políticas públicas de preservação ambiental, desenvolvimento e geração de renda mais consistentes, respeitando a riqueza agrícola e florística do território e criando oportunidades”, completa. “Os resultados comprovam a importância dessa área, e demonstram o grande potencial para auxiliar os guaranis e conquistar maior segurança alimentar dessa população”, disse o secretário de Verde e Meio Ambiente, Eduardo de Castro.

A liderança indígena Jera Guarani participou do evento, destacando a importância do resgate de alimentos tradicionais para as aldeias que vivem no território, possibilitado pela demarcação da terra indígena a partir de 2012. Ela contou que, antes disso, sofreu ao saber que havia variedades de alimentos importantes para a cultura guarani que ela não conhecia. E destacou a importância da preservação ambiental para o futuro do planeta. “Que esse material possa orientar o poder público e servir também para que a população em geral se conscientize sobre a necessidade de se reconectar com a natureza e para a situação crítica que estamos enfrentando no planeta neste momento”, disse.

O trabalho técnico dos levantamentos foi realizado pela equipe do Centro de Trabalho Indigenista composta pelo antropólogo e coordenador do projeto Lucas Keese. Para ele, as publicações são parte de um trabalho de valorização da diversidade ambiental e cultural de São Paulo. “Quantas megalópoles podem dizer que têm uma comunidade tradicional, falando seu próprio idioma e cultivando sua terra de acordo com sua cultura?”, destacou. E a pesquisadora Inês Cordeiro, do Instituto de Pesquisas Ambientais, concordou. “Estou emocionada com o lançamento dessas publicações e com o significado do registro dessa riqueza das tradições guaranis”, disse.

O sociólogo e ex-consultor do Projeto Ligue os Pontos, que atuou como articulador de campo dos dois levantamentos da tribo indígena, Domingos Leôncio Pereira, enfatizou a importância das publicações como registro das importantes informações coletadas no território. “É um trabalho muito bonito, que vai na contramão da atual descrença no conhecimento, da pesquisa, da ciência. Essa região é desconhecida e precisa ser conhecida. É através do conhecimento que a gente dá valor”, afirmou.

Coordenador do Herbário Municipal, Ricardo Garcia também destacou o caráter informativo das publicações. “Esse levantamento vai direcionar os trabalhos de manejo da região, suas informações são elementos para desenvolver novos projetos de agricultura, turismo e segurança alimentar”, disse.

As publicações

Com a publicação “Os agricultores guarani e a atual produção agrícola na terra indígena Tenondé-Porã Município de São Paulo”, é possível conhecer a fundo o cultivo em seis aldeias: Kalipety, Krukutu, Tape Mirî, Tekoa Porã, Tenondé Porã e Yrexakã.

 + Confira aqui as publicações em pdf.

Este território foi reconhecido pela FUNAI em 2012, englobando 15.969 hectares como terras tradicionais do povo guarani. A agrobiodiversidade registrada contempla 81 roças com, pelo menos, 190 espécies entre hortaliças, culturas anuais e perenes, arbustivas e arbóreas.

Cada roça conta com pelo menos dezoito espécies plantadas, chegando até a oitenta em algumas delas.As espécies mais presentes são manivas de mandioca, sementes de milho e feijão e ramas de batata doce, fazendo desta Terra Indígena uma referência regional na reprodução e distribuição de sementes para várias outras aldeias, através de viagens e intercâmbio. 

A outra publicação, intitulada “Flora Tenondé-Porã – Levantamento Florístico na Terra Indígena Tenondé Porã: resultados preliminares” traz um estudo realizado pelo Herbário Municipal, da Secretaria Municipal do Verde e Meio Ambiente, que coletou informações sobre a Terra Indígena Tenondé Porã para colaborar com as demandas da comunidade guarani, na construção do Plano de Gestão Territorial e Ambiental (PGTA) que teve sua área ampliada em 2012. Os trabalhos de campo foram iniciados em junho de 2019 e precisaram ser suspensos em março de 2020 devido à pandemia da Covid-19.

O levantamento revelou cinco espécies registradas pela primeira vez na cidade de São Paulo, e uma espécie cujo último registro havia sido feito em 1950. No total, 301 espécies foram levantadas, sendo 271 nativas de São Paulo. 

Sobre a Terra Indígena Tenondé Porã

Com uma extensão aproximada de 16 mil hectares, a Terra Indígena Tenondé Porã está situada no extremo sul do município de São Paulo, abrangendo também parte das cidades de Mongaguá, São Bernardo do Campo e São Vicente. Apenas na capital paulista são cerca de 8 mil hectares, correspondente a 24% da zona rural sul.

O território é residência de aproximadamente 1.200 a 1.300 indígenas de etnia Guarani Mbyá, distribuídos em 09 (nove) aldeias, nos municípios de São Paulo e São Bernardo do Campo, sendo seis delas situadas emSão Paulo. 

Assim como as unidades de conservação, as terras indígenas são consideradas espaços territoriais especialmente protegidos por legislação específica. Os limites da TI Tenondé Porã sobrepõem a duas unidades de conservação – a Área de Proteção Ambiental Capivari-Monos e o Parque Estadual da Serra do Mar – Núcleo Curucutu. Nas unidades de conservação não é permitida a atividade de agricultura.

Já na Terra Indígena, essa restrição não incide sobre o povo Guarani, que, nos últimos anos, vem buscando resgatar sua cultura e costumes, em especial em relação às formas tradicionais de cultivo da terra e de espécies vegetais. Este resgate procura conciliar a segurança alimentar do povo Guarani e a recuperação e preservação ambiental do seu território que, em 2012, no processo de demarcação, teve sua área expandida, abrangendo áreas com características do meio físico desfavoráveis (densa rede de drenagem, áreas com ocorrência de solos com alto potencial de erosão, entre outros) e a presença de antigas áreas de silvicultura, além de expressivos remanescentes florestais da Mata Atlântica em estágio avançado de recuperação.

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